Lontra Neotropical

LONTRA NEOTROPICAL (Lontra longicaudis)

Profa. Dra. Juliana Quadros

A lontra (Lontra longicaudis) é um mamífero de tamanho médio, considerando o comprimento do corpo e da cauda mede cerca de 80 a 130 cm e pode pesar de 4 a 6 kg. Os machos são maiores do que as fêmeas. Tem pelagem curta e densa, marrom-escuro nas partes superiores, e mais clara no ventre, no colo e embaixo do queixo. A cabeça é pequena e achatada com olhos pequenos, orelhas curtas e arredondadas. A cauda é longa, as pernas são curtas e robustas e os pés são espalmados com dedos unidos por membranas interdigitais.

São semiaquáticas, ou seja, estão sempre na água ou próximo dela. São nadadoras ágeis e excelentes mergulhadoras. No ambiente natural são discretas e é raro observá-las. Como local de descanso, refúgio e reprodução utilizam tocas nas margens dos rios por entre raízes de árvores e cavidades naturais em rochas, ou ainda, utilizam estruturas construídas pelo homem, como pontes e manilhas de drenagem. A defesa do território é feita através de arranhados, e deposição de fezes que deixam marcas odoríferas em locais bem evidentes do ambiente como rochas e troncos caídos, também no entorno de tocas e na foz de afluentes de um rio principal.

O horário em que saem de suas tocas para se alimentar parece variar de acordo com características ambientais do local podendo ser à noite, no início e fim do dia ou mesmo durante o dia. Os itens alimentares mais comuns são peixes, caranguejos e camarões, mas também podem comer insetos, caramujos, sapos, cobras, pequenos mamíferos e aves, e, mais raramente, frutos.

Ao longo do ano vivem sozinhas ou formam o casal para a procriação. Após a reprodução o grupo social é formado pela fêmea adulta com seus filhotes. O período de gestação é de aproximadamente dois meses, nascendo de um a cinco filhotes (geralmente dois ou três) que pesam130 gramas ao nascer. Abrem os olhos com cerca de 44 dias. Iniciam a vida na toca em terra firme e começam a nadar com a mãe aos 52 dias. Mamam de três a quatro meses, com um ano de idade separam-se da mãe e atingem a maturidade sexual aos dois ou três anos de vida.

A distribuição geográfica original da lontra vai desde o norte do México até o Uruguai. Originalmente ocorria em todo o Brasil e também em todo o Estado do Paraná, tendo sido registrada em todos os biomas. Frequentam vários tipos de ambientes aquáticos, tanto de água doce (rios, lagos, pequenos cursos d’água) como de água salgada (baías, lagunas e enseadas), geralmente entre 300 e1.500 mde altitude.

Entretanto, sua sobrevivência no ambiente natural tem sido ameaçada por diversas atividades humanas e conflitos socioambientais. Segundo o decreto 7264/2010 a lontra é considerada uma espécie “quase ameaçada” (NT) no Estado do Paraná. As lontras são alvo de caça por causarem prejuízos financeiros ao consumir peixes em tanques de criação e danificar redes de pesca. Além disso, a pesca predatória, a introdução de espécies de peixes exóticos e invasores, a extração de areia e seixos e o barramento dos rios para a criação de reservatórios de usinas hidrelétricas contribuem para a redução do estoque de presas naturais das lontras e para a fragmentação do ambiente aquático. O desmatamento das áreas de preservação permanente (encostas, nascentes, margens dos rios, mangues e restingas) causa erosão do solo, assoreamento dos rios e perda da qualidade da água, tanto para as lontras quanto para consumo humano. A presença humana muito próxima do ambiente natural das lontras também as coloca em contato com animais domésticos, especialmente cães e gatos, que são potenciais transmissores de doenças. Adicionalmente, as lontras têm sido vítimas de atropelamentos nas estradas, cada vez mais numerosas e mais velozes, construídas para atender às necessidades econômicas de escoamento da produção do Estado. O bioacúmulo de agrotóxicos e metais pesados presentes na água ao longo da teia alimentar tem consequências lentas e silenciosas para a saúde e reprodução das lontras e do ser humano. Outros tipos de poluição que afetam as lontras e as pessoas, especialmente em áreas urbanas e industrializadas, são a contaminação dos rios com esgoto e outros dejetos urbanos e o derramamento de óleo e outros produtos químicos.

Para garantir a sobrevivência das lontras no estado do Paraná é necessário garantir um estoque populacional de presas (alimento) abundante e livre de substâncias tóxicas, além de corpos d’água e suas margens com qualidade e espaço suficiente para assegurar abrigo e reprodução. Ou seja, o ambiente aquático e ribeirinho necessário para a conservação das lontras também é o ambiente que garante às populações humanas a qualidade de água e outros recursos naturais relacionados necessários à sua sobrevivência com qualidade de vida.

Profª Drª Juliana Quadros possui mestrado e doutorado em Zoologia, ambos pela UFPR. Atualmente é professora no Curso de Bacharelado em Gestão Ambiental, Setor Litoral, Universidade Federal do Paraná (UFPR Litoral).

Email: juliana.quadros@ufpr.br

Para saber mais:

Quadros, J. Plano de Ação para a Conservação da Lontra Neotropical, Lontra longicaudis. In: II Workshop para validação dos Planos de Ação para a Política Estadual de Proteção à Fauna Nativa – SISFAUNA – PR, Curitiba, 2008.


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Uma resposta

  1. […] ICMBio e a UFPR Litoral deram início, no último dia 07, ao projeto de pesquisa sobre a lontra neotropical (Lontra longicaudis) no Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange, com o objetivo de compreender o […]

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